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domingo, 28 de janeiro de 2018

A duas semanas do carnaval, a Banda de Ipanema realizou um animado desfile pelas ruas do bairro

De Luiz Carlos Lourenço
Fotos de Daniel Marques

Com uma alegre concentração na praça General Osório já a partir das 15h lotando também a Rua Jangadeiros e a Gomes Carneiro, a tradicional BANDA DE IPANEMA realizou ontem o seu primeiro desfile deste ano, reunindo milhares de foliões que se divertiram até quase o final da noite de sábado, com muita gente fantasiada e alguns excessos de bebida. O desfile foi pacífico, reunindo famílias inteiras e muitos turistas, embora a polícia tenha registrado alguns incidentes, como furtos de relógios, carteiras e celulares e uma leve tentativa de arrastão, na Av. Vieira Souto, logo contida pela polícia.



A saída da banda iniciou-se às 17h30m na Rua Gomes Carneiro, em direção à Avenida Vieira Souto, seguind por essa avenida até a Rua Joana Angélica, quando retornou ao ponto inicial pela VIsconde de Pirajá, interditada ao trânsito por algumas horas. A banda volta a desfilar, no mesmo local, no sábado, dia 10 e na terça-feira de carnaval, dia 13.



O desfile contou com a presença das tradicionais fantasias de caricatas, com destaque para as irmãs Furacão(personificadas pelos irmãos Gino e Joubert, de Niterói),e a participação de Juju Maravilha, homenageando Carmen Miranda, além da tradicional dupla paulista de Taubaté que há 19 anos desfilam fantasiados com os policiais americanos Saucer & Focker, com referências à operação Lava Jato.



A banda de Ipanema, considerada a mãe de todas as bandas do país, está completando 54 anos de tradição no carnaval e alguns dos integrantes exibiram ontem fantasias custando quase R$ 3 mil gastos em plumas e acessórios.



Um dos mais destacados personagens da banda, A MULHER DA MALA, vivido pelo ator e produtor Eduardo Rasberg Soares, provocou aplausos do público pela irreverência e a alegria mostrada junto aos participantes durante todo o desfile. Ao chegar na esquina de Joana Angélica com  Visconde de Pirajá, a caricata subiu num poste e ficou fazendo poses para os turistas e fotógrafos e cinegrafistas que cobriam a festa.



No desfile da Banda de Ipanema, teve  gente que não podia revelar os nomes. As "bicudas beijoqueiras" fizeram o maior sucesso na Banda ."Saímos há muitos anos de bicudas beijoqueiras, mas não podemos falar nossos nomes para não sermos reconhecidos no trabalho", disse um dos integrantes do grupo.



Ao chegar junto à Igreja Nossa Senhora da Paz, na esquina de Joana Angelica com VIsconde de Pirajá, os músicos da Banda de Ipanema pararam por alguns minutos os sambas e marchinhas tradicionais e realizaram a já tradicional homenagem ao compositor Pixinguinha, executando em ritmo de marcha rancho a canção Carinhoso, de sua autoria e de João de Barros. Os organizadores da banda lembram que foi ali naquele igreja que faleceu de enfarto o compositor, num sábado de carnaval, quando Pixinguinha participava do batizado de uma afilhada. A partir de então, a homenagem musical passou a fazer parte do desfile da banda.



BANDA PIONEIRA
Fundada em 1965, no ano do IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro, por Albino Pinheiro (1934-1999), animador cultural e considerado "O prefeito espiritual da Cidade do Rio de Janeiro", por sua animação e carioquice. Entre seus outros fundadores, estão o cartunista Jaguar, criador do jornal "Pasquim", o artista plástico Fredy Carneiro, que sugeriu o nome da banda inspirado em uma banda de sua cidade mineira, Ubá, "O Bloco Carnavalesco Fila Harmônica Embocadura", puxado por 40 homens com fantasias extravagantes. Nascida da combinação de boêmios intelectuais com o espírito dos blocos carnavalescos dos subúrbios, a banda desfila 15 dias antes do carnaval, antecipando a folia carioca. Sempre teve padrinhos e madrinhas famosos. A este fato, reporta-se Sérgio Cabral, em seu livro "O ABC de Sérgio Cabral": "Ser padrinho ou madrinha da Banda de Ipanema é uma grande honra, como se vê pelos nomes escolhidos nesses 12 anos de existência: Clementina de Jesus, Nássara, Eneida de Morais, Bibi Ferreira, Lúcio Rangel, João de Barro, Leila Diniz, Aracy de Almeida, Clara Nunes, João Nogueira, Grande Otelo, Martinho da Vila, Nélson Cavaquinho e Cartola. EM 1976, Albino Pinheiro convidou Beth Carvalho para madrinha. Como ela havia viajado para a Europa, Albino convocou Bibi Ferreira para o lugar. Beth, entretanto, largou Paris e correu para pegar o desfile da banda, encontrou Bibi Ferreira em seu lugar. A cantora ficou tão chateada, que recusou o convite para ser madrinha do desfile de 1977, "Só aceito em 1978", disse ela, vingando-se da hesitação do comandante Albino Pinheiro. A banda chega a desfilar com mais de 100 mil foliões. Cabia às irmãs gêmeas Laura e Délia (então com mais de 80 anos) e, ainda, às irmãs Judith e Hilda boa parte da alegria no desfile.



Conta-se que durante o Regime Militar, duas agentes do SNI (Serviço Nacional de Informação) infiltraram-se no desfile da banda disfarçadas de senhoras, querendo descobrir "códigos subversivos". Outra história bem inusitada se passou com o boêmio Hugo Bidet, que alugou um cavalo branco e, com farda militar de general, entrou na rua Jangadeiro, tomando um chope sem descer do pangaré.





Casos interessantes se passaram durante o desfile da banda, como o da reaproximação de João Saldanha e sua mulher Teresa, refazendo um casamento desfeito há alguns meses. Em seus primeiros desfiles, trazia o slogan "Uma Banda em cada bairro". Logo depois, começaram a surgir bandas em vários bairros do Rio. Uma das alas mais interessantes foi a Ala das Escrotas da Banda, composta, dentre outros boêmios e intelectuais, pelo crítico Alex Viany e o também crítico e letrista Sérgio Cabral, que abandonou a ala, para sair com a sua camisa do Vasco. Rildo Hora, em parceria com Sérgio Cabral, compôs "Banda de Ipanema", onde ressaltam o espírito do bloco tão carioca: "Vem a Banda de Ipanema/ Espalhando alegria/Quero a minha voz/Dentro do coral/Viva a vida e morra a morte/E a moçada de Ipanema/Botou na rua seu carnaval".



Durante o desfile do ano 2000, o cineasta Paulo César Saraceni, também folião da banda, filmou o documentário "Banda de Ipanema - Folia de Albino", sobre a vida de seu amigo Albino Pinheiro, com quem dividia suas duas paixões: o futebol do Fluminense e o carnaval azul e branco da Portela. O filme  intermedia cenas do documentário "Natal da Portela", com Grande Otelo, que conta com vários depoimentos de pessoas ilustres sobre a Banda de Ipanema.