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quarta-feira, 9 de março de 2016

Cariocas vão poder assistir, de graça, a espetáculo teatral sobre homossexualidade misturando relatos reais com ficção


O documentário poético “Domínio do escuro”, idealizado e dirigido por Juliana Pamplona e contemplado pelo Programa Viva à Arte da Secretaria Municipal de Cultura, será apresentado, a partir de março, em lonas e arenas seguido de debate

Foto: Renato Mangolin

O espetáculo “Domínio do escuro” vai circular, pela primeira vez, por lonas e arenas culturais do Rio de Janeiro, em apresentações gratuitas, com estreia no dia 24 de março, na Arena Carioca Jovelina Pérola Negra, na Pavuna.  A peça traz uma visão original sobre um tema que merece ser pensado e discutido: a homossexualidade em um passado recente, através das vozes de idosos gays. Combinando ficção com relatos dos idosos entrevistados para a peça, a dramaturga e diretora Juliana Pamplona criou uma espécie de documentário poético importante para uma questão que ainda é complicada para a sociedade. Não à toa, o espetáculo foi contemplado por dois anos consecutivos: montado com o recurso do programa de  Fomento à Cultura Carioca na categoria LGBT em 2014.  Em 2016, “Domínio do Escuro” terá apresentações gratuitas e seguidas de debates, viabilizadas pelo aporte do edital Viva à Arte 2015 da prefeitura da cidade.


“Um dia, estava almoçando com a minha avó e perguntei se ela tinha algum amigo ou conhecido homossexual. Silêncio, em seguida interrompido pela resposta: ‘Não me lembro de ninguém’. Insisti: ‘Ah, vó, que pena, estamos pesquisando esse tema’. De novo um silêncio interrompido pela revelação: ‘Minha irmã era’. E então, com a voz embargada, me contou sobre como minha tia-avó, que sofria de uma ‘enfermidade’ que teve de esconder para não atrapalhar sua carreira ou sujar a reputação da família. O final não é feliz. Leila, ainda moça, internou-se num hospital psiquiátrico. Faleceu logo depois, levando com ela todo o peso de estar errada e desconforme com a sociedade em que vivia. O pouco que sabemos da história da minha tia-avó é repleto de hipóteses de ‘talvez’ e ‘eu acho que ela...’. O que não sabemos está para sempre silenciado.”

Histórias como essa contada pela atriz Lívia Paiva (23 anos), resgatadas ao longo do processo de pesquisa da peça, justificam a importância do projeto para Juliana Pamplona, idealizadora do espetáculo “Domínio do escuro”, criado a partir de registros antigos – fotos, diários, desenhos e cartas – e depoimentos gravados de idosos homossexuais, dos quais muitos tiveram suas histórias silenciadas em algum momento da vida e quiseram, agora, deixar seus relatos. “A ideia inicial foi a de resgatar e produzir registros de um legado que não chegou até nós. Conversamos com os idosos sobre assuntos diversos como amor, medo, vergonha e sexualidade. Foi muito interessante esse encontro de gerações – entre os oito idosos entrevistados, quase todos na faixa dos 70 e 80 anos, e os atores da peça, todos com vinte e poucos anos. Foi uma troca muito rica”, diz Juliana. “A escolha de juntar essas duas gerações nesse projeto não foi à toa. A peça é, também, uma pergunta à nova geração sobre o que significa assumir modos de ser e de se relacionar que resistem aos padrões normativos hoje e de que maneira a discussão de sexualidade e de gênero atravessa suas projeções de futuro, seus desejos de mundo. Foi por meio da interseção entre essas projeções de futuro e memórias, que o material poético e estético de “Domínio do escuro” foi criado”, complementa.

Três jovens atores – Clarisse Zarvos, Lívia Paiva e Pedro Henrique Müller – levam à cena versões performatizadas desse material documental. “Falar de desejos silenciados de uma geração distante da minha é visitar memórias e atualizar uma infinitude de afetos. O amor entre pessoas do mesmo sexo há alguns anos representava um tabu maior do que representa hoje, mas que nem de longe está superado. Quais situações impensáveis e silenciadas atualmente serão resgatadas pelas gerações seguintes?”, questiona a atriz Clarisse Zarvos, de 25 anos. O espetáculo conta também com a criação de videografismos produzidos por Pedro Modesto e trilha sonora de Jonas Sá, recursos fundamentais para que as histórias fossem contadas na forma performática desejada para a forma da cena.
“Domínio do escuro” é uma resposta (em aberto) a uma dívida histórica, que faz com que, ainda hoje, haja uma ausência enorme de narrativas de idosos gays e lésbicas (além de outras identidades de sexualidade antes não classificáveis e que vêm ganhando visibilidade). A criação desse espaço cênico dá visibilidade a histórias desviantes que, de outro modo, seriam apagadas muito em breve, acumulando mais legados invisíveis à margem da história normativa.

Unindo investigação artística ao compromisso com uma dívida histórica, “Domínio do escuro” – que estreou ano passado na Sede das Cias, na Lapa – vai circular, a partir do dia 24 de março, pelas lonas e arenas cariocas.

Ficha técnica:
Direção e dramaturgia: Juliana Pamplona
Elenco: Clarisse Zarvos, Lívia Paiva e Pedro Henrique Müller
Preparação corporal: Duda Maia
Cenário e Figurino: Elsa Romero
Iluminação: Lara Cunha
Vídeos: Pedro Modesto
Trilha Sonora: Jonas Sá
Programação Visual: Clarice Pamplona
Produção executiva: Clarisse Zarvos e Marina Gadelha
Direção de Produção: Fernanda Avellar
Realização: Trestada Produções

Veja a programação:
 Arena Carioca Jovelina Pérola Negra - Pavuna
Endereço: Praça Ênio, s/nº - Pavuna
Telefone: 2886-3889
Dia: 24 de março (quinta-feira) – Com duas sessões
Horários: 15h e 19h30
Com debate após a primeira apresentação
Ingressos gratuitos
Classificação etária: 14 anos
Capacidade: 308 lugares
Duração do espetáculo: 70 minutos
Gênero: Documentário LGBTTQ

Lona Cultural Municipal  Carlos Zéfiro – Anchieta
Endereço: Estrada Marechal Alencastro s/n – Anchieta
Telefone: 3019-1654
Dias: 2 e 3 de abril (sábado e domingo)
Horários: 20h (sábado) e 17h  (domingo)
Com debate no domingo após a apresentação
Classificação etária: 14 anos
Capacidade: 320 lugares
Duração do espetáculo: 70 minutos
Gênero: Documentário LGBTTQ
Lona Cultural Municipal Jacob do Bandolim – Jacarepaguá
Endereço: Praça do Barro Vermelho s/nº
Telefone: 3173-5460
Dia: 9 de abril (sábado) - Com duas sessões
Horários:  17h e 19h
Com debate após a segunda apresentação
Ingressos gratuitos
Classificação etária: 14 anos
Capacidade: 320 lugares
Duração do espetáculo: 70 minutos
Gênero: Documentário LGBTTQ
Lona Cultural Municipal Herbert Vianna - Maré
Endereço: Rua Ivanildo Alves s/nº
Telefone: 3105-6815
Dia: 13 de abril (quarta-feira) - Com duas sessões
Horários: 14h e 16h
Com debate após a segunda apresentação
Ingressos gratuitos
Classificação etária: 14 anos
Capacidade: 320 lugares
Duração do espetáculo: 70 minutos
Gênero: Documentário LGBTTQ
Arena Carioca Carlos Roberto de Oliveira - Dicró - Penha
Endereço: Av. Brás de Pina, s/n - Parque Ary Barroso – Penha (entrada pela rua Flora Lobo)
Telefone: 3486-7643
Dias: 23 e 24 de abril (sábado e domingo)
Horários: 20h (sábado) e 19h (domingo)
Com debate no domingo após a apresentação
Ingressos gratuitos
Classificação etária: 14 anos
Capacidade: 338 lugares
Duração do espetáculo: 70 minutos
Gênero: Documentário LGBTTQ

CURRÍCULOS

Juliana Pamplona
Juliana Pamplona é dramaturga, diretora e pesquisadora na faculdade de Letras da UFRJ por meio do Pós-Doc da FAPERJ Nota 10. Bacharel em Teoria do Teatro (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO) e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas na UNIRIO, foi também pesquisadora visitante no departamento de Performance Studies na NYU (New York University, 2012.2) por meio da CAPES/PDSE. Teve o seu projeto “Desestabilizadores de Cena” contemplado com a bolsa de pesquisa e criação artística da Secretaria de Cultura – RJ (2011), resultando na peça de sua autoria “O céu sueco”. Ministrou as oficinas curtas “Sesc Dramaturgia: Leituras em Cena” (entre 2009 e 2013) no Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo e Santa Catarina. Fez o dramaturgismo da montagem teatral da Cia. Os Dezequilibrados “Beija-me como nos livros”.

Clarisse Zarvos
Atriz, tem graduação em Artes Cênicas pela UNIRIO e é doutoranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC/ Rio. Atualmente está em cartaz com a peça “Contra o vento” (dir. de Felipe Vidal, no CCBB RJ) e ensaia a peça “Domínio do escuro” (dir. de Juliana Pamplona, estreia prevista para agosto na Sede das Cias/ RJ). No teatro, destacam-se ainda os seguintes trabalhos: “Couve-flor” (2014/ 2015, dir. de Caio Riscado), “Na República da Felicidade” (2014, dir. de Felipe Vidal), “Estudos para uma odisseia” (2013, dir. Thierry Trémourroux), “Noites brancas” (2012, dir. Thierry Trémourroux), “A wayto b” (2011, dir. de Ria Marks) e “Depoimentos às terras do Brasil” (2007/2009, dir.de Orlando Arocha - indicada prêmio de atriz revelação no XVI Festival de Teatro do Rio, em 2009). Com o Coletivo Oh, Céus! em parceria com Helena Bittencourt e GoosMeewusen, realizou os espetáculos “O crocodilo” (2013/2014), “Antes que seja dia” (2011) e “Baile” (2008).

Lívia Paiva
Atriz e pesquisadora formada pela CAL e integrante da Probástica Cia de teatro, que em 2011 estreou “[des]conhecidos” e em 2013 “Elefante”. Seus últimos trabalhos como atriz são: “Domínio do escuro” de Juliana Pamplona, “Amores” de Domingos Oliveira, “Sarau das putas”, de Ivan Sugahara, “A partir das três irmãs” do diretor francês Vincent Macaigne no Tempo Festival, “TERRA”, direção de Malu Valle, “Leve-me assim” de Vitor Barbarisi e “Relações Perigosas”, de Marcelo Morato. Como autora, assinou a dramaturgia do espetáculo “De onde vem o vento” e de "Fala comigo como a chuva e me deixa ouvir" com Ivan Sugahara, ganhador do prêmio Cesgranrio de melhor espetáculo. Participou do projeto “Viagens Imaginárias” sob supervisão de Aderbal Freire Filho e direção de ThierryTremouroux. É mestranda na UFRJ na linha de pesquisa “Direitos humanos, sociedade e arte”. Fez intercâmbio para a Universidade de Paris VIII onde participou do "Festival de l'auterité".

Pedro Henrique Müller 

Ator formado pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) no ano de 2011, atualmente cursa o bacharelado em Artes Cênicas - Teoria e Estética do Teatro na UNIRIO. Atuou no curta-metragem "Embriagados" de J.P. Pacca (2011, Dir: J.P. Pacca). Integrou em 2011 o espetáculo "Divinarias" a partir do romance "Nossa Senhora das Flores" de Jean Genet. (Dir.: Inez Vianna; Teatro Gonzaguinha, RJ). Em 2012 atuou na peça "A Prova de Fogo" de Consuelo de Castro (Dir.: Vera Fajardo). No início de 2013 participou da montagem "120 Dias de Sodoma" – adaptação da obra de Marquês de Sade (Dir.: Luiz Furlanetto; Fosfobox); foi indicado ao prêmio do III Festival de Teatro Universitário do Rio de Janeiro (FESTU-Rio), na categoria de melhor ator pela encenação de "Eu Sei Que Vou Te Amar" (Dir.: Amanda Tedesco) em 2013; Em 2013 também participou da montagem de "O Tempo e os Conways" de J. B. Priestley (Dir.: Vera Fajardo; Sesc Casa da Gávea) e no espetáculo “Rebeldes – Sobre a Raiva” texto de Edna Rezya adaptado por Rodrigo Nogueira (Dir.: Rodrigo Nogueira e Fabricio Belsoff; Espaço Tom Jobim - Galpão). Participou do projeto “Uma Odisseia”, pesquisa cênica realizada em colaboração com a Cia Instrumento de Ver em Brasília a partir do poema épico de Homero (Dir.: Thierry Tremouroux; Espaço Pé Direito). Com o grupo Teatro Voador Não Identificado participa da montagem de “O processo”, adaptação do romance homônimo de Franz Kafka (Dir.: Leandro Romano; Sede das Cias / Teatro Ipanema) em 2014 e 2015.

Trestada Produções
Trestada Produções Artísticas produz espetáculos teatrais que dialogam com as contradições sociais e valorizam a pesquisa de linguagem cênica. Fundada em 2012 tem como o objetivo difundir o teatro nos mais diversos setores sociais, busca parcerias que se disponham a refletir sobre suas funções e responsabilidades na sociedade contemporânea. Em 2013, 2014 e 2015 foi contemplada com o Fomento à Cultura Carioca e edital Viva à Arte com os espetáculos “Mar Aberto” dirigido por Helena Bittencourt e GoosMeuwsen e “Domínio do Escuro” dirigido por Juliana Pamplona. Em 2014 foi selecionada no prêmio Funarte Artes na Rua, com o espetáculo “Vertigem”, que será dirigido por Cláudio Baltar. É a produtora proponente pela realização do espetáculo “70 anos de Gonzaguinha, o musical”, em fase de captação de recursos e com estreia prevista para o fim deste ano.