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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Do Almanaque Gaúcho,ZH - Ricardo Chaves

KGB, O COMUNISTA DOS BARES

KGB fumando um "Marboro" no bar Odeon, em 1987, na Rua Andrade Neves. Foto: Marco Couto, Arquivo Pessoal
KGB fumando um “Marboro” no bar Odeon, em 1987, na Rua Andrade Neves.
 Foto: Marco Couto, Arquivo Pessoal

Colaborou Paulo Pruss


Havia um personagem de Porto Alegre que atendia pelo prosaico apelido de KGB. A figura de voz pastosa, casaco surrado e pastinha na mão frequentava os bares da zona central da cidade, e as pessoas que o cumprimentavam efusivamente, com um “Aí, KGB”, às vezes nem conheciam o significado do apelido. KGB era a polícia política da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas que amparou o regime comunista pós-stalinista, em 1954, até o fim da URSS, em 1991, no auge dos anos sinistros da Guerra Fria.

Como nosso personagem era velho ativista do Partido Comunista e, mais do que isso, falava, discursava e transpirava suas convicções políticas à frente de um copo tipo martelinho servido com caninha pura, o batismo de KGB lhe caiu bem. Ninguém se lembra de algum emprego, muito menos de moradia fixa, embora lembrassem suas façanhas na vila dos Marítimos, que ficava na Avenida Bento Gonçalves.

O antigo bar Naval, no Mercado Público, outro local frequentado pelo andarilho. Foto: Armênio Abascal Meireles, Banco de Dados, 07/08/1978
O antigo bar Naval, no Mercado Público, outro local frequentado pelo andarilho. Foto: Armênio Abascal Meireles, Banco de Dados, 07/08/1978

Na sua história mais conhecida, ele contava proezas da tentativa de colocar no ar uma rádio clandestina. Sabe-se que esteve preso com o então deputado Carlos Araújo na Ilha do Presídio, durante a ditadura militar, e que passou um tempo internado no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Sabe-se também que suas andanças começavam pela manhã, no rotineiro exercício de filar um café com deputados e assessores na Assembleia Legislativa. Depois, andarilhava pela cidade a panfletar algum acontecimento político, sempre amparado por uma pasta de plástico repleta de adesivos.

Impossível imaginar o KGB sem a pasta embaixo do braço. Guardava ali panfletos, recortes de jornais, livrinhos de políticos editados pela Assembleia e, em época eleitoral, muitos santinhos. Não qualquer santinho. Apenas os dos candidatos identificados com a esquerda. Ao final da tarde, KGB e sua pasta rondavam o bar Naval, no Mercado Público, e o Tuim, na Rua General Câmara, antes de seguir, à noite, ao bar Odeon, na Rua Andrade Neves. Sempre havia quem lhe pagasse uma bebidinha, e KGB ia ficando. Encarava por vezes um aperitivo com losna e fumava “Marboro”, como dizia. Morreu atropelado em Curitiba há cerca de 10 anos.