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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

CEMITÉRIO DO RIO TEM VISITAS GUIADAS
ÀS SEPULTURAS DE NOTÁVEIS DA HISTÓRIA

Patrono da aviação Santos Dumont

De Luiz Carlos Lourenço
Fotos de divulgação

O Cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, iniciou nesta semana  seu projeto de visitas guiadas aos túmulos de celebridades e de personalidades importantes da história do país. Fundado em 1852, o local abriga os jazigos perpétuos de Tom Jobim, Marechal Rondon, Carmen Miranda e Cândido Portinari, entre outras figuras conhecidas. Cento e cinquenta túmulos de personalidades tem QR Codes (código de barras em 2D que pode ser escaneado por smartphones) que mostram a história da pessoa enterrada ali. Entre os já disponíveis estão o de Clara Nunes e Santos Dumont.


O  São João Batista teve sua ocupação iniciada pelos fundos do terreno. "Os melhores túmulos e esculturas estão no eixo central e, a partir dele, em mais duas quadras para a direita e duas para a esquerda", explica o guia turístico Carlos Roquette, um dos primeiros a comandar visitas guiadas ali. Projetadas originalmente para servir como praças, com o passar dos anos as quadras centrais foram ocupadas. O passeio tem início pela via principal, apelidada de Vieira Souto. Um jazigo naquela área não é vendido por menos de 100.000 reais. 


O túmulo do presidente Afonso Pena, por exemplo, que está nos arredores da via principal, chama atenção por ser todo esculpido em mármore branco, com uma cúpula na qual a bandeira brasileira é reproduzida em um mosaico translúcido. Mais adiante, num ponto nobre da "Vieira Souto", o líder comunista Luis Carlos Prestes jaz em uma sóbria sepultura de granito preto. "Ao seu lado está uma companhia improvável em vida: Hélio Beltrão, ministro durante os governos militares dos generais Costa e Silva e Figueiredo. A poucos passos de Prestes está Tom Jobim, protegido pela sombra de uma palmeira-imperial plantada por sua viúva, Ana Lontra Jobim. Já no topo do portentoso mausoléu de Santos Dumont foi fincada, a pedido dele, uma estátua de Ícaro, personagem da mitologia grega que representa o sonho de voar. Próximo ao Pai da Aviação, há o túmulo de mortos em um acidente de avião da Força Aérea Brasileira e outro de um piloto da Esquadrilha da Fumaça.


Discretíssimo se comparado à exuberância de sua ocupante, o jazigo da cantora Carmen Miranda, a pequena notável pode passar despercebido. Sobre o tampo figura uma imagem de Santo Antônio, de quem a cantora era devota.  Outro que prima igualmente pela simplicidade é o de Cazuza, onde podem ser vistas apenas uma reprodução de sua assinatura e o título de uma de suas composições mais emblemáticas: O Tempo Não Pára.  Perto dele fica a lápide branca de Clara Nunes, que, sempre cheia de flores frescas, atrai uma romaria de fãs ao cemitério. A devoção é tanta que existem, sobre o jazigo, placas de agradecimento por graças alcançadas.
Outra atração imperdível é o gigantesco mausoléu da Academia Brasileira de Letras, , nos fundos do São João Batista. É aberto à visitação pública apenas no Dia de Finados. Logo na entrada, um pequeno ossuário guarda os restos mortais de Machado de Assis e de sua mulher, Carolina. Em outro espaço ficam os túmulos dos escritores e as gavetas reservadas aos que partiram há mais tempo, como Guimarães Rosa, morto em 1967.


Ao avançar pelos corredores que dividem as quadras, acompanha-se a evolução arquitetônica do cemitério. Nas sepulturas do fim do século XIX e início do XX, predominam os estilos eclético e neogótico. "Neles vemos toda a opulência das famílias ricas", afirma o guia José Motta, especialista em história da arte na Universidade de São Paulo e responsável por passeios guiados ao São João Batista desde 1989. Entre a I e a II Guerra Mundial, vigoram a geometria e a volumetria típicas do art déco. A partir da década de 40 sobressaem túmulos grandiosos, em alusão às Forças Armadas. "Eles são muitos devido à grande quantidade de comandantes que o Rio abrigou por ter sido a capital do país até 1960", completa o paulistano Eduardo Rezende, estudioso de cemitérios e proprietário de uma editora especializada no assunto.

Família Guinle

Embora um roteiro prévio seja essencial para conhecer o São João Batista, vale a pena caminhar por lá e descobrir relíquias escondidas. Arte ou saudade, estética ou história contada de um jeito diferente, pouco importa a motivação. Como costuma dizer Milton o historiador e guia do passeio, Milton Teixeira, a importância do passeio é desmistificar o lugar e aproximar as pessoas de figuras históricas.


Segundo o historiador Milton Teixeira, as visitas aos cemitérios acontecem em todo o mundo. É uma maneira de ter contato com as pessoas que construíram o país. Afinal de contas, onde encontraríamos Carmem Miranda, Cazuza e Francisco Alves juntos?". As visitas podem ser agendadas no site do cemitério, que tem 65 mil pessoas enterradas. Em Enfeitando os túmulos, o local tem uma das maiores coleções de arte do Brasil, que inclui a primeira escultura abstrata do país, feita em 1914.
Para Milton, o Cemitério de São João Batista é o mais importante da América Latina, pelo número de personalidades importantes sepultadas. Circulando com naturalidade entre os jazigos, perguntado sobre qual seria a sua epígrafe, ele não pensa duas vezes: “Na minha lápide estará escrito: enfim, magro.


No próximo domingo, dia de Finados, haverá um show  e a participação de sósias de algumas celebridades enterradas ali, como Tom Jobim, Chacrinha, Cazuza e Carmen Miranda, são alguns que "aparecerão" entre as sepulturas.