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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

ZUZU ANGEL, OCUPANDO O CORAÇÃO
DOS BRASILEIROS QUE A AMARÃO SEMPRE



Texto e fotos de Luiz Carlos Lourenço

Com cerca de 400 itens sobre a vida da estilista e militante ZUZU ANGEL, uma das exposições mais importantes do ano no país, a  Ocupação Zuzu Angel foi inaugurada ontem, quinta-feira(14), para uma longa  temporada no Paço Imperial. A abertura contou com a presença da filha de Zuzu, a jornalista e colunista HILDEGARD ANGEL , destaques da mídia nacional e estrangeira, nomes da sociedade e antigos companheiros de militância do irmão de Hildegard Stuart, morto durante a ditadura militar, como os sobreviventes Lucia Murat, Paulo Jabur, Angela e Carlos Alberto Muniz, Heleninha Bocayuva e Nelson Rodrigues Filho.
Idealizada e produzida pelo Itaú Cultural, a exposição já passou por São Paulo e teve mais de 45 mil visitantes. A visitação é gratuita e está aberta ao público até dia 2 de novembro.
A exposição apresenta fotografias, vestidos, croquis, documentos, objetos e cartas de Zuzu a personalidades brasileiras e estrangeiras, militares, congressistas americanos, artistas e intelectuais na busca pelo filho, Stuart Angel Jones, preso e assassinado pelo regime militar brasileiro.

Hildegard Angel, filha de Zuzu, jornalista e criadora do Instituto Zuzu Angel e do Museu da Moda, pesquisou incessantemente para a montagem da exposição e participa da curadoria da mostra.
Nesta histórica mostra, os visitantes  poderão ver 40 looks criados pela estilista, além de mais de 30 itens como camisetas, bolsas, porta-óculos, fivelas – todos com os anjinhos, que se tornaram seu símbolo.
Entre suas peças, há quatro criações para noivas; trajes que ela usava em seu luto pela perda do filho, com um cinto formado por crucifixos prateados, três peças usadas por modelos americanas no famoso desfile de protesto que ela fez em Nova York, nos anos 70; e dois exemplares da série pastoral.
Na busca pelo filho, Zuzu escreveu diversas cartaz de denúncia a militares brasileiros, como o então presidente Ernesto Geisel, e intelectuais e artistas, como Chico Buarque. Essas cartas também estão na exposição, assim como artigos publicados sobre ela na mídia nacional e internacional.
A  abertura da Ocupação Zuzu Angel coincidiu com o horário do início de outra exposição denominada "Oscar Niemeyer: Clássicos e Inéditos." 


Durante todo o período da exposição sobre ZUZU ANGEL, em dias alternados, atrizes dirigidas pela estilista e consultora Karlla Girotto farão performances-surpresa entre o público. Vestidas com réplicas de roupas desenhadas por Zuzu, elas lerão trechos de suas cartas. As performances acontece em momentos neste final de semana, dias 16 e 17 de agosto e também nos dias 13 e 14 de setembro, 18 e 19 de outubro e 1º e 2 de novembro.


PRESENÇAS

Inúmeras personalidades compareceram na noite de inauguração da mostra, destacando-se o presidente da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, acompanhado de sua irmã, a jornalista Monica Dallari, a presidente da Comissão Estadual da Verdade, Nadine Borges, e sua colaboradora Denise Assis. Lá estavam também a primeira-dama do Estado, Maria Lucia Jardim Pezão, a ex-ministra da Cultura, Ana de Hollanda, a secretária de Estado de Comércio e Serviços, Dulce Ângela, e a presidente do Iphan, Jurema Machado, bem como deputados federais e estaduais, nomes da sociedade carioca como Helcius Pitanguy e Yolanda Figueiredo, Waldir Leite, Marcia Verissimo, Marco Rodrigues, Kika Gama Lobo, Sonia Simonsen, Renata Fraga. Ana Cristina Quevedo, Nina Kauffmann, Andréa Cardoso, Ana Lucia Santana, Roberta Aguiar, Vivian Chen, Vivian Fava, Luiz Carlos Brant, Bete Suzano, Isa Chloris, Julia Morales, e a cantora e atriz Eliana Pittman.

Bete Suzano
"Esta exposição emociona a cada centímetro que se dá um passo aqui, porque a história da estilista Zuzu Angel é contada como nunca foi antes", disse Eliana Pittman, ao conversar com jornalistas.   E prosseguiu " É um pedaço da nossa história, crua, verdadeira e emocionante. Só assim podemos definir tudo o o que estamos podendo ver aqui".
A mostra “Ocupação Zuzu”, tem o intuito de apresentar Zuzu Angel por completo, indo além de seu trabalho como estilista. São pedaços da história, com fotografias, manuscritos, croquis, vestidos e até um documento do Instituto Médico Legal, sobre sua polêmica morte, além de peças de seu filho Stuart – morto por militares na ditadura nos anos 70, expostas pela primeira vez ao público – a exposição consegue trazer à tona, não só a história da moda, mas seu perfil como política e militante em busca da verdade.
Além de todas as peças, a abertura contará, como ocorreu em São Paulo com um desfile-performance, com modelos usando replicas das roupas feitas por Zuzu no auge do seu glamour. O ponto alto do desfile é a entrada de modelos vestidas de preto, simbolizando o luto de Zuzu na busca por seu filho. É como se esse grande talento da Moda Brasileira nos tivesse sido roubado. 


O desfile finaliza com a leitura de textos escritos pela estilista durante a desesperada busca por seu filho. Não existe outra definição  para descrever a mostra se não como “emocionante” e "verdadeira". 
Para os apreciadores de moda, ali também estão as  peças alegres que consagraram Zuzu Angel como a primeira estilista brasileira a ser conhecida internacionalmente – a primeira a desfilar em Nova York e vestir celebridades de Hollywood – e inclui suas criações negras, que expressam seu sofrimento e foram boicotadas enquanto a estilista era viva e tentava, por meio da moda, falar sim de política – e por que não? Moda é puramente expressão! O trabalho de Zuzu Angel foi um marco histórico, o primeiro a usar moda para protestar contra a ditadura. Para que os visitantes possam sentir parte desse sentimento que acompanhou Zuzu até sua morte, a mostra tem um espaço onde os visitantes podem escrever cartas para pessoas que desapareceram, ou já se foram. Foi uma ideia usada para fundir o espectador à obra.


Na exposição, Hilde lembrou que quando a Ocupação Zuzu foi inaugurada em São Paulo, no emblemático 1º de Abril, marcando os 50 anos do Golpe Militar, suas primeiras palavras ditas ao auditório do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, foram sobre a “Lenda Urbana” de que Zuzu Angel morrera em um “acidente sem causas esclarecidas”, versão que mascarava a verdade gritante, que tantos se negavam a escutar.
Afinal, desde 1998, o Governo Brasileiro, através da Comissão dos Desaparecidos Políticos, criada pelo então Ministro José Gregori, reconhecera a farsa do suposto “acidente” que vitimara sua mãe. De fato, uma emboscada por agentes do regime militar. Hilde se revolta ao comentar que neste nosso ano de 2014, passados 16 anos daquele esclarecimento, ainda havia quem se referisse ao episódio como um “acidente”. 
A jornalista salientou ainda que, devido à ampla repercussão do evento na mídia nacional, e g raças a esta Ocupação Zuzu, parceria do Instituto Itaú Cultural com o Instituto Zuzu Angel, essas nuvens equivocadas enfim começam a se dissipar”.




Hildegard Angel lembra ainda que "todo o país se comove acompanhando o aprofundamento das investigações da busca dos restos mortais de meu irmão, Stuart, e o surgimento de novos elementos que ratificam o reconhecimento oficial já dado pelo Governo Brasileiro do Assassinato de Zuzu Angel. Como a foto publicada na primeira página do jornal O Globo do “chefe da quadrilha” do SNI, coronel Freddy Perdigão, no local e no momento da tocaia em que mamãe foi eliminada. É um trabalho esplêndido, incansável, corajoso da Comissão Nacional da Verdade, conduzido pelo seu destemido presidente, Pedro Dallari, sabedor de que ainda há muito mais esforço de investigação a ser feito."
Para Hildegard Angel, com a inauguração da Ocupação Zuzu no mais nobre espaço da cidade, e certamente o mais nobre do Brasil, o Paço Imperial, os organizadores da mostra estão também celebrando um ano de parceria com o Itaú Cultural.

Helcius Pitanguy, Iara e Iolanda Figueiredo e sua amiga

"Trata-se da primeira grande instituição de promoção de cultura do país que abraça a Moda como manifestação de arte, avalizando-a, afinada com a condução dada pela ministra Marta Suplicy à política cultural do país, ao incluir a moda como item contemplado pelas Leis de Incentivo de seu Ministério. Para dar esse passo, o Itaú Cultural escolheu a coleção de Zuzu Angel, a pioneira do conceito da moda com legitimidade brasileira.
A jornalista aproveitou para cumprimentar  Milú Villela, a presidente do Itaú Cultural, pelas múltiplas realizações de sua instituição, de modo comprometido e generoso, tornando o Brasil um país melhor e mais importante.

Nelson Rodrigues Filho também estava presente

"Gostaria de agradecer ainda a essa equipe competente do Itaú Cultural, liderada por Eduardo Saron. Vou nominar: Valdy Lopes Junior, Valéria Toloi, Claudiney Ferreira, o time de curadores comigo. É mais uma vitória, com o Instituto Zuzu Angel dando continuidade à sua parceria com o Instituto Itaú Cultural, através da digitalização da Coleção Zuzu Angel, dentro do projeto da Casa Zuzu Angel de Memória da Moda do Brasil – Acervo, Conservação e Restauração de Têxteis. A Coleção Zuzu Angel expõe nossas vísceras, na plenitude e sua beleza e de sua tragédia.Ela é uma chama de alerta, que deve ser mantida sempre ardente, em nome de nossa cultura e de nossa Democracia."












SERVIÇO

Ocupação Zuzu Angel 

Visitação: De 14 de agosto a 2 de novembro. De terça-feira a domingo, das 12h às 18h
Onde: Paço Imperial - Praça Quinze de Novembro, 48, centro. Estações próximas: metrô Carioca
Quanto: Entrada franca
Mais informações: (21) 2533 4359