Pesquisar

sábado, 19 de julho de 2014

BIOGRAFIA REVELA COMO TURBULENTA VIDA PESSOAL DE MARLON BRANDO TEVE REFLEXOS EM SUA CARREIRA

Livro escrito por jornalista francês destaca a figura autodestrutiva de um símbolo sexual que rejeitou a fama e o glamour de Hollywood e sucumbiu ao excesso de peso em meio a tragédias pessoais

Biografia revela como turbulenta vida pessoal de Marlon Brando teve reflexos em sua carreira warner/Divulgação
Foto: Wamer/ Divulgação




Por Marcelo Perrone

Duque em seus Domínios é um dos mais emblemáticos perfis de celebridades assinados por Truman Capote, tão revelador que lhe rendeu um inimigo feroz. Marlon Brando nunca perdoou o ferino escritor por tê-lo exposto, em 1956, como um bufão afetado e guloso, apreciador de enfadonhas conversas sem pé nem cabeça e, mais grave, um sujeito traumatizado pelo alcoolismo da mãe.  
Percorrendo as páginas de Marlon Brando – A Face Sombria da Beleza, compreende-se a razão para o desconforto que a figura materna trazia ao grande mito do cinema. Assinada pelo jornalista francês François Forestier, a biografia investe na turbulenta vida privada do ator para iluminar um gigante imponente e frágil, moldado em uma família desestruturada e que foi incapaz de se ligar afetivamente a alguém além de sua mãe
Segundo o autor, foi determinante na vida e na carreira de Brando
o desajuste afetivo e social germinados em um lar tensionado pelos atritos entre o pai, tipo ausente e autoritário, e mãe, atriz frustrada apaixonada por Shakepeare que o jovem Brando costumava resgatar entorpecida de bares e camas que ela percorria entre as idas e vindas com o marido. 
Brando cresceu em confronto com qualquer tipo de autoridade. Expulso de escolas e do exército por indisciplina, decidiu seguir o caminho que a mãe viu interrompido. Foi estudar interpretação em Nova York. Mais do que aprender o famoso "método" do geração do Actors Studio, ele consagrou um estilo único de interpretação em que espelhava em seus personagens a combustão emocional gerada por seus conflitos pessoais.
Forestier destaca o marco zero da criação do mito: aos 23 anos, em 1947, Brando ganhou o papel do explosivo Stanley Kowalski na montagem da Broadway de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, com direção de Elia Kazan. O furor foi tamanho que Kazan garantiu o rapaz no elenco da versão para o cinema que se tornaria um clássico, em 1951 — no Brasil, Uma Rua Chamada Pecado.
A Face Sombria da Beleza descreve como, nesses primeiros passos, Brando ganhou fama de predador sexual e usou essa voracidade e sua beleza como instrumentos de poder e dominação. Ele tinha prazer sádico em seduzir e desprezar amantes, corria riscos de vida ao se meter com garotas erradas, levava mulheres à ruína emocional e até ao suicídio e passou a pagou um alto preço com casamentos irresponsáveis e desastrosos.
Livros como esse, em geral, costumam ter caráter caça-níquel pela exposição, por vezes invasiva e desrespeitosa da vida privada do biografado. No caso de Brando, que praticamente eliminou a barreira entre o que era e o que interpretava, detalhes como sua falta de higiene e sua bissexualidade se tornam secundários diante da recriação que Forestier faz dos bastidores de alguns seus mais emblemáticos filmes e da vocação autodestrutiva que o levou à precoce decadência física e artística.
Intriga o autor investigar como um totem de beleza e virilidade inflou até ficar desfigurado por conta daquele que era seu único vício: comer compulsivamente. E por que razão um ator com o talento de Brando fez tantos filmes inexpressivos e até constrangedores. E ainda: por que um homem que passou a vida celebrando suas amizades morreu solitário, aos 80 anos, em 1º de julho de 2004, amargando uma série de tragédias familiares.
Desde o começo da carreira, diz Forestier, Brando mostrou-se vaidoso e inseguro. Gostava de se divertir desestabilizando colegas e diretores com seus improvisos e atrasos no set. Ao ficar famoso, passou a rejeitar Hollywood, vista apenas como fonte de dinheiro para financiar suas temporadas em Paris, cidade que julgava à altura de sua ambição intelectual antítese do falso mundo que frequentava, e também sua militância em causas sociais. Brando foi uma celebridade pioneira a se manifestar pelos direitos civis dos negros, a protestar contra o tratamento do governo americano aos índios e a divulgar a causa ecológica quando ninguém sabia o que era isso.  
Forestier faz considerações que podem desagradar aos fãs de Brando. Segundo o autor, apenas dois filmes construíram e sustentaram o astro em seu auge: Uma Rua Chamada Pecado e Sindicato de Ladrões (1954), também sob a direção de Kazan e que deu a Brando seu primeiro Oscar de melhor ator. Entre eles, filmes que contribuíram para criar uma imagem icônica do ator, como O Selvagem (1953), mas que não sobrevivem a uma revisão crítica. Após estes, o início de um lento ocaso.
A falta de motivação maior que não o cachê fez Brando deixar passar papeis em filmes que se tornariam clássicos e topar outros aquém do seus atributos dramatúrgicos, embora alguns tenham feito sucesso. São particularmente saborosos os relatos que o livro traz da caótica realização de longas como O Grande Motim (1962), desastroso projeto que fez Brando se apaixonar pelo Taiti, transformado por ele em um harém particular.
Brando tinha no pai que lhe desprezava — mas amava seu dinheiro — um parasita a drenar boa parte de sua fortuna em negócios nebulosos que nunca vingaram. Outra parte escoava por entre um fila de ex-mulheres raivosas e filhos que ele nunca conseguiu contabilizar quantos eram. Ninguém mais queria trabalhar com Brando quando lhe apareceu a chance de estrelar O Poderoso Chefão (1972), após Laurence Olivier, antigo rival e desafeto, e George C. Scott recusarem o papel de Don Vito Corleone.
Francis Ford Coppola bancou o renascimento profissional de Brando, que teve de se submeter a cláusulas contratuais rígidas e a um humilhante teste de elenco. Este fez valer a oportunidade com uma performance memorável, merecedora de seu segundo Oscar - que ele mandou uma índia receber na festa. Brando precisava tanto de dinheiro à época que topou o cachê de US$ 100 mil em vez da participação na bilheteria do clássico que se tornou um estrondoso sucesso (estima-se que se tivesse topado os 5% propostos pelos produtores teria embolsado pelos menos US$ 10 milhões).
Na sequência, Brando topou fazer o cultuado O Último Tango em Paris (1972) para pagar uma dívida com o produtor italiano de Queimada (1969), filme no qual levou à loucura o diretor Gillo Pontecorvo. Brando trabalhou até 2001, entre altos e baixos. Deixou como último grande trabalho Apocalypse Now (1979), nos minutos em cena mais sofridos dirigidos por Coppola, simbólicos dos últimos instantes de brilho do gigante indomável que sucumbiu ao próprio peso.